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O NINFEIAS, núcleo de pesquisa coordenado pela pesquisadora e performer Nina Caetano - professora do departamento de artes cênicas da UFOP - visa a investigação de teorias feministas e práticas performativas. Funciona como uma rede colaborativa, instigando a provocação artística, encontros e trocas entre estudantes e mulheres da comunidade ouropretana. Os encontros do núcleo ocorrem no DEART e, neste semestre, são às terças-feiras, de 19 às 21h, e às quartas, de 10 às 13 h.
Atualmente o NINFEIAS é composto pelas performers pesquisadoras Thaiz Cantasini, Karla Ribeiro, Mara Reis, Mayra Pietrantonio, Carolina Reis e Lívia Maria. Também participam desta rede colaborativa: Paola Giovana, Olívia Coelho, Isabelle Balbi, Isabella Mayrink, Thaís Muniz e Carolina Pienegonda.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Músicas Machistas, Cultura do Estupro e Empoderamento de Mulheres

Sempre tiveram músicas machistas, né? Não somente no funk ou em outros gêneros originalmente periféricos, como o samba em sua raiz. Mas também na bossa nova, nas músicas tradicionais e no rock, nacional e estrangeiro. Vou me ater a tratar aqui da música brasileira, que é do contexto em que vivo e, via de regra, a música que, como DJ, toco.
E quando falo de distinção de graus de machismo, não é pra justificar o machismo, dizendo que é isso mesmo, que a música reflete o seu tempo... sim, óbvio. Então a gente vai ter “Ai que saudades da Amélia”, que é machista pra caramba: ela pensa a mulher dentro da dicotomia santa/puta e também em uma mulher domesticada como o ideal feminino. Mas é bem diferente, ainda, de uma música como "Mulher Indigesta" (Noel Rosa)  – "Mas que mulher indigesta, indigesta! /Merece um tijolo na testa"  – ou do samba de roda “Se essa mulher fosse minha”: "Se essa mulher fosse minha / Eu tirava do samba já, já / Dava uma surra nela / Que ela gritava: Chega / Chega / Oh meu amor / Eu vou-me embora da roda de samba eu vou"... No segundo caso, não há nem implícito. A(s) música(s) incita(m) diretamente a violência.
A mais recente polêmica é com o funk “Surubinha de leve”**, do MC Diguinho. Sempre fico um pouco cabreira com a crítica ao funk, porque às vezes percebo que tá misturado também um lugar de classe e de raça, sabe? Mas não tem como negar que essa música tem uma letra violenta, que incita ao estupro né? Penso que a cultura do estupro não tá só aí não, acho que está também na ideia geral da mulher como propriedade e objeto, o que pode levar, inclusive, a outras violências como feminicídio. Também está na sexualização precoce de meninos que já aprendem, ainda crianças, a ver mulher como pedaço de carne, o que é evidenciado muito bem no clipe do MC Doguinha (“Vamos Fazer Sacanagem”). Mas se vamos falar de funk, a gente precisa olhar o outro lado também, quando a mulher assume controle da sua sexualidade e do seu desejo.
Posso citar as clássicas “A porra da buceta é minha” (Deise Tigrona), “Larguei do meu marido virei puta” (Gaiola das Popozudas) e “Estaladinha” (Mulher Filé), além das músicas da dona do meu set, MC Carol: “Meu namorado é o maior otário” ou “Propaganda enganosa”. Ah, sem contar “100% Feminista”, que a maravilhosa divide com Karol Conká. Ainda no funk, gosto de citar MC Jessica, por causa da resposta bem paródia a um pagodão dos anos 90 (do grupo Só pra Contrariar): “Tô fazendo amor com a favela toda”!
Tem muito moralismo classe média (com dificuldade em compreender uma linguagem periférica) que confunde isso com objetificação da mulher. No meu entendimento, é muito diferente a mulher dizer o que gosta e o que quer, e se afirmar como dona de seu corpo, e essa ideia da mulher como objeto, inclusive do lar, coisa que está na música brasileira não é de hoje. Basta ouvir um samba como “Minha Nega Na Janela” (Germano Mathias, 1957) – que, além de tudo, é racista: "Minha nega na janela/ Diz que está tirando linha / Êta nega tu é feia / Que parece macaquinha / Olhei pra ela e disse / Vai já pra cozinha / Dei um murro nela / E joguei ela dentro da pia / quem foi que disse que essa nega não cabia?"  – ou, mais recentemente, “Mulher não manda em homem” do grupo de pagode Vou pro Sereno, pra perceber isso.
Esse processo de objetificação da mulher em nossa cultura patriarcal – em que ela é percebida como “propriedade” masculina – conduz à ideia de que o homem tem direito de dispor dela como quiser e, não somente abusar dela ou agredi-la sexualmente, mas também agredi-la fisicamente, espancá-la e, inclusive, exterminá-la, caso a mulher não “corresponda” ao seu “amor” ou às suas vontades.
É o que expressam músicas como “Se te agarro com outro te mato” (Sidney Magal, 1977)  ou, ainda, o samba “Faixa Amarela”, cantado tranquilamente por Zeca Pagodinho: “Sem falar na tal faixa amarela/ Bordada com o nome dela/ Que eu vou mandar pendurar/ Na entrada da favela/ Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela/ Vou lhe dar uma banda de frente/ Quebrar cinco dentes e quatro costelas/ Vou pegar a tal faixa amarela/ Gravada com o nome dela/ E mandar incendiar/ Na entrada da favela”.
Preocupantes também são músicas como “Vida de Balada”, da dupla sertaneja Henrique e Juliano, que romantiza relações abusivas, perseguição, em que a vontade e a escolha da mulher não importam: "Tô a fim de você/ E se não tiver, você vai ter que ficar/ Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada/ E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca/ Vai namorar comigo, sim!/ Vai por mim, igual nós dois não tem/ Se reclamar, ce vai casar também”. Ou a criminosa "Noiva-cadáver"***, que romantiza o feminicídio em um país em que são mortas cerca de 15 mulheres por dia, 70% assassinadas por homens que diziam amá-las. Enfim, eu poderia citar ainda inúmeras outras, desde a coisificante e violenta canção infantil “Maria Chiquinha” (cantada pela dupla Sandy & Júnior, ainda crianças) até as músicas do Raimundos (tem mais de uma) ou do Velhas Virgens: a lista é infinita!
Mas é porque, precisamente, a música reflete o seu tempo, e isso significa também mudança, transformação, evolução, é que a gente tem, hoje em dia, rappers como Criolo e Mano Brown rediscutindo músicas machistas que compuseram há poucos anos atrás, refazendo letras.
Mas é óbvio (pelo menos pra mim) que eles não estão fazendo isso à toa ou porque são “bonzinhos”. É principalmente porque estão sendo questionados, colocados em xeque. Porque a mulherada não tá aceitando mais: estamos criticando e reivindicando outros olhares sobre nós e nossos corpos. Basta! Não queremos mais continuar sendo mortas, abusadas, agredidas!
É também por isso, porque a música reflete o seu tempo, que penso que a gente precisa prestar mais (muita) atenção na produção musical de mulheres. É ato de resistência! Seja produzindo música – sem que, necessariamente, esteja se pensando em uma agenda feminista –  seja assumindo, em suas letras, posições de denúncia e de confronto deste machismo tão arraigado em nossa cultura.
No rap, por exemplo, temos muitas mulheres fodas, desde a ativista feminista Luana Hansen – que fez “Minha xota te ama”, uma versão lésbica genial do funk “Deu onda” – até a rapper mais pop do Brasil, Karol Conká, com o hino “Lalá”, em que critica o pouco cuidado masculino com o sexo oral e com o prazer da mulher. Tem ainda Rimas & Melodias e, em Belo Horizonte, temos Tamara FranklinZaika dos Santos, Sarah Guedes, só pra citar algumas das que mais admiro.
Mas também no coco, no samba, na MPB de um modo geral, no rock, temos mulheres que tão propondo a diferença. Aíla, Letrux, Karina Buhr, Alessandra Leão, Larissa Luz, Pitty... E não posso deixar de citar a gloriosa rainha Elza Soares – resistência na vida! – com o hino feminista, “Maria da Vila Matilde”, do fodástico álbum Mulher do Fim do Mundo (eleito pelo New York Times como um dos 10 melhores álbuns de 2016).
Só para dar um último exemplo, vou lembrar de um coco lindo de D. Aurinha, "Seu Grito", que denuncia um feminicídio. Ele fala assim: "Seu grito silenciou/ lá no alto em Olinda/ era uma mulher tão linda/ que a natureza criou./// Ela foi morta/ no meio da madrugada/ com um tiro de espingarda/ pela mão do seu amor./// Fico orando/ a Deus peço clemência/ com toda essa violência/ o mundo vai se acabar./// Moro em Olinda/ canto coco com amor/ luto contra a violência/ porque mulher também sou./// Eu sou guerreira mulher/ mulher guerreira eu sou/ eu canto coco em Olinda/ e canto com muito amor."
Quero terminar meu texto com esse coco que eu amo, por causa da afirmação
de D. Aurinha: luto contra a violência porque mulher também sou.
Somos mulheres e estamos produzindo música. Escutem-nos.

Quem quiser ouvir mais e conhecer com calma outras mulheres fodas, tem as minhas playlists feministas no soundcloud, DJ Shaitemi Muganga.


**Após denúncias de que "Surubinha de Leve" fazia apologia ao estupro, a música foi retirada da web, por isso a ausência de link.

***Após denúncias, o vídeo foi removido do youtube pelo compositor de Noiva-Cadáver, Rafa Kamaitachi.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Entrevista para o Programa Conexão - Canal Futura

edit: [entrevista preparatória para o programa "Empoderamento Feminino e cultura do estupro na música", que foi ao ar no dia 22/02/2018)

1) O que é o NINFEIAS?
O NINFEIAS é um Núcleo de INvestigações FEminIstAS que coordeno, desde 2013, em Ouro Preto e que pesquisa as relações entre performance e feminismo. O núcleo é ligado à UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto, por meio da minha atuação junto ao PPGAC – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas do qual sou professora.
Atualmente pertencem ao NINFEIAS, além de mim, Carol Reis, Karla Ribeiro, Lívia Maria (estudantes do Curso de Artes Cênicas) e Mayra Pietrantonio (estudante de Museologia). A gente vem criando experimentos cênico-performativos livremente inspirados na obra “Monólogos da Vagina”, além de atuar junto à comunidade ouro-pretana por meio de várias ações extensionistas, que vão desde oficinas de Educação pela Igualdade (ministradas a profissionais da educação e estudantes da rede pública da cidade) até rodas de conversa sobre Cultura do Estupro, que ocorrem em diversos lugares, para diferentes públicos. Fazemos também semanas temáticas, como a semana AfroFeminista – que realizamos de 20 a 25 de novembro de 2017 e teve como tema principal o protagonismo da mulher negra – e sessões de cinema, entre outras atividades.

2) Como surgiu essa criação, essa ideia?
Desde 2008 que pesquiso, em Belo Horizonte, essa relação entre performance e feminismo (junto ao obsCENA – agrupamento independente de pesquisa cênica). Em 2011, após a finalização do meu doutorado, retorno a Ouro Preto com muito desejo de aproximar essa investigação da realidade da cidade, extremamente conservadora e patriarcal. Então, juntei-me a outra pesquisadora – Thaiz Cantasini, artista fenomenal e educadora – e fundamos o NINFEIAS com o intuito de agregar outras mulheres que tivessem interesse em pensar ações de combate à violência que diariamente sofremos.

3) Nossa pauta surgiu a partir da discussão sobre a música "surubinha de leve". Como você recebeu essa música?
Então... Sempre tivemos músicas machistas no Brasil... São reflexo de nossas realidades sociais, do modo como nossa cultura vê a mulher. E isso, evidentemente, não somente no funk ou somente em gêneros populares, como o samba em sua raiz. Mas também na MPB e no rock, nacional e estrangeiro.
Sempre fico um pouco cabreira com a crítica ao funk, porque às vezes tá misturado também um lugar de classe e de raça, sabe? Mas não tem como negar que essa música tem uma letra violenta, que incita à violência né? Penso que a cultura do estupro não tá só aí, acho que tá na ideia geral da mulher como propriedade e objeto, o que pode gerar, inclusive, outras violências como feminicídio. Acho que tá também na sexualização precoce de meninos, que já aprendem ainda crianças e ver mulher como pedaço de carne, o que evidencia muito bem o clipe do mc Doguinha.
Mas se vamos falar de funk, a gente precisa olhar o outro lado também, quando a mulher assume controle da sua sexualidade e do seu desejo. E, nesse sentido, eu poderia citar várias mulheres e músicas que fazem parte deste contraponto: “A porra da buceta é minha” (Deise Tigrona), “Larguei meu marido virei puta” (Gaiola das Popozudas) e “Estaladinha” (Mulher Filé), além das músicas da rainha do meu set, Mc Carol: “Meu namorado é o maior otário” ou “Propaganda enganosa”. Gosto de citar também a MC Jessica, por causa da resposta bem paródia a um pagodão dos anos 90 (do grupo Só pra contrariar): “Tô fazendo amor com a favela toda”!

4) Esse movimento de mulheres que cantam e escrevem letras sobre o empoderamento feminino é algo novo ou sempre existiu? Porque lembramos de músicas feitas por antigas mulheres que falavam de família, amor etc... Hoje, as letras falam mais sobre o empoderamento, como no caso da música da Lila que fala "não é não". É algo atual?
Eu diria que a gente conhece pouco ainda a produção feminina, ela ainda é pouco valorizada, embora tenhamos mulheres compondo e cantando músicas há décadas... Faz parte da minha pesquisa o que chamo de “discotecagem feminista”, em que procuro conhecer e tocar músicas de mulheres. Pra mim, mulher fazendo música já é um ato de resistência – ainda que não estejam, necessariamente, pensando em uma agenda feminista. Mas muitas vezes, as mulheres estão assumindo, em suas letras, posições de denúncia e de confronto deste machismo tão arraigado em nossa cultura.
No rap, por exemplo, temos muitas mulheres fodas, desde a ativista feminista Luana Hansen – que fez uma versão lésbica genial do funk “Deu onda” – até a rapper mais pop do Brasil, Karol Conká, com o hino “Lalá”, em que critica o pouco cuidado masculino com o prazer sexual da mulher. Tem ainda Rimas & Melodias e, em Belo Horizonte, temos a Tamara Franklin, a Zaika dos Santos, Sarah Guedes, só pra citar algumas das que mais admiro.
Mas também no coco, no samba, na MPB, temos mulheres que tão propondo a diferença. Aíla, Letrux, a dona da porra toda e também do meu coração, Elza Soares....  Só pra dar um último exemplo, vou lembrar de um coco lindo, que eu amo, da D. Aurinha do Coco. Esse coco, “Seu Grito”, denuncia um feminicídio. Ele fala assim: Seu grito silenciou/ lá no alto em Olinda/ era uma mulher tão linda/ que a natureza criou./// Ela foi morta/ no meio da madrugada/ com um tiro de espingarda/ pela mão do seu amor./// Fico orando/ a Deus peço clemência/ com toda essa violência/ o mundo vai se acabar./// Moro em Olinda/ canto coco com amor/ luto contra a violência/ porque mulher também sou./// Eu sou guerreira mulher/ mulher guerreira eu sou/ eu canto coco em Olinda/ e canto com muito amor."
Quem quiser ouvir mais e conhecer com calma outras mulheres fodas, tem os meus setlist no soundcloud, DJ Shaitemi Muganga:  .

terça-feira, 15 de agosto de 2017

manifesto I

Uma vida sem sentido.
Um corpo para ter, absorver a imagem que TE mandam exercer. - não! não gritou.


~~~~Como eu saio daqui? Estou presa a essa única forma de ser humano.
Sou vendada e vendida, como qualquer alfinete que costura os pontos rompidos do meu sofrimento- - -
-
- -
- - -
- - - -
- Não quero ser e estar nessa estrutura.tô sangrando por não ter escolhas e são ELAS TODAS IGUAIS. As MESMAS que cobrem seu corpo pra não revelarem seus sentidos.
- - - - - - - mas sua alma grita LIBERTE-SE!

Quebre essas correntes que te querem dominar e seja livre IGUAL UM PÁSSARO, QUE VOA!
E faz desse voo a sua história... aquilo que quer ser.

Sangre por aquilo
que vale a pena.
Capaz você é
de gerar um ser
e você está nessa mercê.

Caminho trilhando a loucura da dor de saber que é mais um, nesse caminho a sofrer. Uma estrada onde me colocam para caminhar de joelhos. levantei. eu e você. meu ser, andaremos em pé.

Carolina Reis


Imagem: Rosana Paulina - Série Bastidores, 1997.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Vagina, um codinome.

estava molhada.
na sala um cheiro de óleo de lavanda. caminhei diante dos teus olhos. ela percorreu com seus dedos pequenos a minha barriga, com suas unhas grandes, arranhou minha vulva quente.
teus olhos continuavam a me perseguir, parecia um jogo sem fim.
quando ela ameaçou sua língua contra pêlos, d'eu. gemi alto.
trouxe os dentes, num singular gesto, mordeu com tanta doçura meus lábios febris.
- qual o nome?
fiquei desconcentrada. - como assim? que nome?
- quero chama lá como se fosse uma pérola, ou uma comida para envolver toda a língua, nesse leite que escorre pra mim. vai.. me diz! como posso chamar tua buceta?
ri. comecei a ri, é claro! era a noite, ouvia as músicas mais sexy da gal costa. mas ao mesmo tempo ela trazia no olhar uma condução, quando perguntava para mim qual era o nome da minha vagina. e ao mesmo tempo me deixava sem graça... um nome para minha vagina? era isso? um nome?
- chama de vavá, vai!  - ou gina, aquela que prende teu petisco.
- pode chamar também, de ná! ou não chama... sente ela comigo.

daniela maia


quarta-feira, 5 de julho de 2017

minha vagina é um animal

minha vagina é um animal que sangra todo mês e não morre.
minha vagina é uma vaca sagrada que alimenta com seu leite os infiéis.
uma cadela domesticada que abana o rabo quando lhe fazem carinho.
minha vagina é um animal tímido, que se esconde na toca ao menor ruído.
minha vagina é arisca.
minha vagina é lânguida e se alonga como um gato sob o sol.
mas, por dentro, é uma onça brava.
minha vagina voa livre e orgulhosa, altiva como uma ave.
minha vagina é uma pomba da paz em meio à guerra dos mundos.
minha vagina cavalga e escoiceia, impetuosa.
minha vagina cheira a suor quando está no meio de suas pernas.
minha vagina é um peixe que desliza suavemente em suas águas.
suas escamas brilham entre as pedras.
minha vagina tem dentes e língua. minha vagina lambe e morde.
minha vagina é um animal selvagem.
minha vagina não aceita coleira nem voz de comando.
minha vagina é um animal perigoso. tocá-la é a morte para você.
minha vagina é um cão de três cabeças: a primeira expele fogo, a segunda gelo, e a terceira veneno.
minha vagina é um monstro, metade mulher, metade bicho.
minha vagina pode matar.


exercício de criação textual de Nina Caetano
experimento cênico-performativo Monólogos da Vagina
com Karla Ribeiro, Lívia Maria, Mara Reis e Mayra Pietrantonio.


domingo, 2 de julho de 2017

minha vagina é um chocolate meio amargo

minha vagina não é doce
e não se derrete fácil
embora seja vulnerável a altas temperaturas.
neste caso, se aquecida,
fica logo molinha
e solta aromas pela casa.
se aquecida,
ela escorre e lambuza
deixando um gosto forte em sua boca.
minha vagina é um chocolate meio amargo
que vai bem com sabores ácidos
e línguas ferinas

quarta-feira, 28 de junho de 2017

minha vagina sente

minha vagina sente
espasmos calor frio
calafrios
minha vagina sente(-se)
em arroubos e contrações involuntárias
minha vagina sente o tesão crescer
em descargas elétricas
estremecimentos
minha vagina sente sem querer.
ela se alonga, preguiçosa
ao sentir o dedo em suas bordas
ela geme e grunhe
sente o toque a língua a saliva úmida
ela sente o cheiro de suas axilas
e sorri
minha vagina sente amor
ela sangra
ela escorre e se aprofunda
minha vagina abisma-se em si
invagina-se.

minha vagina é um animal selvagem

minha vagina é um animal selvagem,
gata arisca que não se deixa amansar.
precisa chegar devagar, sem querer domar
ela é voraz, inquieta
quer agradar? é só lambê-la toda.
e sem pressa.


sua vagina tem cheiro de que?

sua vagina tem cheiro de que?


minha vagina tem cheiro de
vagina
sangue
aloe vera
cachoeira
mar
manjericão
orgasmo
floresta
sal
maconha
segredo
cachaça
perfume de pomba gira (risadas)
(risadas)
chiclete tutti frutti
água benta
champagne com morangos
gasolina (gasolina neles!)
cheiro de choro
de lágrima
de cuspe.

exercício de criação do experimento cênico-performativo Monólogos da Vagina
com Carolina Reis, Karla Ribeiro, Lívia Maria, Mara Reis e Mayra Pietrantonio.

se sua vagina se vestisse, ela vestiria o que?


se sua vagina se vestisse, ela vestiria o que?


se minha vagina se vestisse, ela vestiria                                                                          
erva de cheiro
terno
pétalas
arame
chave
cortina
renda
chitão
água
ela não ia usar nada
pregador
armadura
barro
guerra
gozo
nuvem
espinho
asas
gripe
cabelo

exercício de criação do experimento cênico-performativo Monólogos da Vagina
com Carolina Reis, Karla Ribeiro, Lívia Maria, Mara Reis e Mayra Pietrantonio.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mulher, Performance e Violência











                         

“Seu corpo é um campo de batalha”
[famoso  cartaz pró-aborto, concebido pela  ativista
feminista estadunidense Barbara Kruger, em 1989].


Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher boneca. Mulher rosa. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher doce dócil muda. Mulher morta. Mulher, uma obra em construção: Sorriso. Batom Boca Beijo. Depiladores hidratantes sutiãs pregadores talheres vassoura gleidy sachê escova progressiva inteligente. Silicone. Peito. Bunda. Coxa. 100% completa. Como você gosta. Pronta para consumo imediato. Sarada. Turbinada. Preparada. Plastificada. Espancada. Esquartejada. Morta. Jogada pros cachorros. na lagoa. no lixo. Como você gosta?
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. A mulher em relação ao marido. Esposa. Casar. Amar e respeitar até que a morte os separe. Cuidar. Cozinhar. Limpar. Lavar. Passar. Sujeitar. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade. Mesmo sem vontade apanhar. Compreender. Apanhar. Perdoar. Apanhar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade.
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. Destruir. Dar cabo de. Aniquilar. Ex-terminar. A cada 90 minutos, uma mulher é assassinada no Brasil. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus (ex) namorados, noivos, maridos. 10% desses homens são agentes da segurança pública. Amar e proteger. Conceição de Maria, 43 anos. Morta a socos pelo marido, policial militar reformado. Osailda, 45 anos, morta por envenenamento. O marido segue em liberdade, assim como o assassino de Débora Souza, 20 anos, atendente do Maria Bonita de Ouro Preto. Também em Ouro Preto, Amanda Linhares, 17 anos, foi ex-terminada pelo ex-namorado, delegado de polícia da cidade. Fernanda Sante Limeira, 35 anos. O ex-marido apontou a arma e atirou 4 vezes, sem que ela pudesse reagir. Em Corinto, cidade em que minha mãe foi sistematicamente espancada pelo meu pai sem que ninguém metesse a colher, Júlia, uma senhora de 80 anos, foi morta pelo marido. No Sul, Natália, 16 anos, grávida de 3 meses, foi morta pelo namorado com pelo menos 80 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse .
Iniciei essa conversa tecendo o manifesto que, na performance Espaço do Silêncio, ofereço à leitura de passantes. Alterno esta ação com o ato de imprimir, em um branco lençol de casal, cruzes vermelhas e, sob cada uma delas, etiquetas. Cada etiqueta contém o nome de uma mulher vítima de feminicídio, sua idade, profissão, e localidade em que o crime ocorreu. Além disso, traz o modo como a mulher foi assassinada e o vínculo que seu assassino mantinha com ela. Uma cruz vermelha cerra minha boca.
Nesse ritual silencioso com que traço o meu legado de injustiças, cada etiqueta se transmuta em uma espécie de lápide, construindo “um cemitério simbólico”.  Meu olhar é duro, não há condescendência. Pois cada um de nós precisa se haver com nossa parcela de responsabilidade por estar no mundo[1].
De fato, sinto que essa ação a cada dia vem cobrar de mim a minha parcela de estar mergulhada de corpo inteiro neste mundo e de fazer dele minha matéria. Parafraseando a performer e pesquisadora Eleonora Fabião (2008: 238): não somos nós, performers, quem, ao evidenciar o corpo, deseja tornar evidente o corpo-mundo?
Espaço do Silêncio é um gesto de denúncia e de indignação.
Aqui, retomo a expressão da ativista feminista estadunidense Carol Hanisch – “o pessoal é político” –  para tratar dessa espécie de grito, que sai de dentro do campo de batalha que é o meu corpo. [aqui, parafraseando outra ativista feminista estadunidense, Barbara Kruger, em seu famoso cartaz pró-aborto: Seu corpo é um campo de batalha]. De dentro do campo de batalha que é o meu corpo sai esse grito, o grito de quem sente na carne as violências decorrentes de uma performance de gênero imposta socialmente. E que, quando não o sente diretamente, se propõe a ser palco para a voz de outras tantas mulheres, silenciadas por uma estrutura machista, cruel: seja na forma de neutralização de nossa voz política, seja na naturalização e romantização de relações que violam ou aniquilam os nossos corpos.
Espaço do Silêncio é uma performance de rua com cerca de 07 horas de duração. Nesse trabalho, busco escutar a voz de mulheres que não foram ouvidas em tempo de evitar seu aniquilamento. Das 365 mulheres que habitam cada lençol que “bordo” em minha ação, muitas denunciaram as violências que sofriam. Muitas recorreram à justiça, buscando proteção. Outras se calaram antes, ou foram silenciadas. Suas vozes, desinvestidas de valor e de poder.
Não, em um país em que se mata, em média, 13 mulheres por dia[2], esta não pode mais ser tratada como uma questão de âmbito estritamente privado, doméstico. Não, essa não é uma questão pessoal.
Constato, a cada dia, que Espaço do Silêncio, antes de tudo, me convoca a uma espécie de missão. Qual missão eu ainda tateio, ainda tateio o que preciso fazer com o que faço. Pois essa performance tem se revelado muito maior do que eu. Ela tem me revelado dimensões inusitadas e alcances inesperados. E penso que realizá-la é a minha chance de conhece-la. Nesse tatear, vou então a alguns fatos, que trago em notas sobre ela:
1ª nota: Em 29 de julho deste ano, fui procurada via Messenger por Rosy Souza. Ela me disse que havia visto, em compartilhamentos do facebook, materiais sobre a performance. Nesses materiais, o nome de sua tia, Osailda de Sousa Coelho, de 45 anos, assassinada por envenenamento pelo marido, em Dom Expedito Lopes, Piauí. Rosy me disse que ela havia visto o nome da tia e resolvido me procurar. Rosy quer justiça, ela luta para que o crime, ocorrido em fevereiro de 2015, seja julgado como tal e o feminicida – que permanece em liberdade – seja punido. Ela luta para que o crime não seja esquecido e para que a memória de sua tia não seja apagada.
2ª nota: Em 03 de setembro, fui novamente procurada via Messenger. Agora, por uma atriz e amiga que havia acompanhado, no final de 2015, a mesa de debates “Feminicídio: o corpo da artista e a fabricação do corpo feminino”, da qual participei na II Bienal Internacional de Teatro da USP. Na ocasião, tratei desta ação, Espaço do Silêncio, e Vanessa Biffon, a minha amiga atriz, tendo vivido recentemente uma perda, lembrou-se de mim: no final de julho, Fernanda Sante Limeira, a irmã de uma grande amiga dela, foi assassinada pelo ex-marido e o desejo de Vanessa era que eu fizesse minha ação também em memória de Fernanda.
3ª nota: Em 07 de setembro deste ano, junto ao Grito dos Excluídos, realizei, na Praça 7, a performance em memória de Fernanda. Nesse dia, durante a realização da ação, uma mulher, Rita, quis falar comigo: ela queria me dar o nome da irmã, para que ela também figurasse em meu lençol. A irmã, Maria do Carmo Souza Galli, foi assassinada pelo marido há mais de 30 anos e ele nunca foi nem sequer indiciado: o crime foi visto como suicídio, embora um laudo pedido pela família tenha comprovado que ela foi morta com 02 tiros nas costas.
Esses recentes acontecimentos têm me mostrado que Espaço do Silêncio não é só um gesto de denúncia e indignação. Não é só um gesto meu. É também espaço de memória para outras mulheres, um grito que ecoa, que repercute em outros corpos.
Qual a eficácia da ação na cena contemporânea?
Essa questão, lançada pela pesquisadora cubana Ileana Diéguez durante o Colóquio Pensar a Cena Contemporânea, tem sido mote para muitas das discussões e práticas em torno das possíveis relações entre arte e política ou, mais especificamente, entre as artes da presença e a ação política, que realizo dentro do projeto de pesquisa “Corpos Estranhos, Espaços de Resistência”, desenvolvido junto aos coletivos NINFEIAS (Ouro Preto) e Obscena (aqui, em BH).
O projeto investiga ações performativas e escritas performadas (em suas múltiplas dimensões e suportes) que tem como eixo as diferentes corporeidades e práticas espaciais produzidas nas relações de enfrentamento e convívio ocorridas no espaço urbano. Interessam-me, sobremaneira, as corporeidades vistas a partir das questões de gênero[3], sendo objeto de investigação as práticas parodísticas e de (auto)invenção de corpos que visam perturbar as lógicas de padronização e espetacularização das subjetividades e colocar em xeque discursividades e representações que materializam os corpos, ou seja, é objeto de experimentação as práticas que desejam evidenciar os efeitos de poder que pesam sobre nossos corpos, tornando-os inteligíveis ou, ao contrário, tornando-os corpos invisíveis ou mesmo abjetos:

Nesse sentido, o que constitui a fixidez do corpo, seus contornos, seus movimentos, será plenamente material, mas a materialidade será repensada como o efeito do poder, como o efeito mais produtivo do poder. [...] O ‘sexo’ é, pois, não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural (BUTLER, 1999, p. 111).

Desse modo, vejo, nas articulações entre ativismo e performance, uma possibilidade de considerar a prática performática como uma nítida colocação/tomada de posição de corpos políticos marcados pela diferença e, talvez, marcados pela opressão e pela invisibilidade: o corpo da mulher, mas também o corpo dx negrx, dx transgênerx, e tantos, tantos outros corpos possíveis! Nesse sentido, considero que a performance pode, muitas vezes, alargar as fronteiras de sua ação política e flertar diretamente com os movimentos sociais, performatizando-os.

Esta é, a meu ver, a força da performance: turbinar a relação do cidadão com a polis; do agente histórico com seu contexto; do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o outro, o consigo. Esta é a potência da performance: deshabituar, des-mecanizar, escovar a contra-pêlo. Trata-se de buscar maneiras alternativas de lidar com o estabelecido, de experimentar estados psicofísicos alterados, de criar situações que disseminam dissonâncias diversas: dissonâncias de ordem econômica, emocional, biológica, ideológica, psicológica, espiritual, identitária, sexual, política, estética, social, racial... (FABIÃO, 2008: 237).

Evidentemente, não é exclusividade da performance a possibilidade de “disseminar dissonâncias”, até mesmo porque ela não escapa da institucionalização ou mercantilização de sua produção[4]. No geral, esta tem sido a tarefa de toda arte que se pretende política. No campo das artes da presença, me interessam especialmente as diversas modalidades cênicas que, escapando de uma taxinomia teatral mais tradicional, experimentam as relações entre arte e vida, estética e ética, imbricando criação artística e ato ético.
Dessa perspectiva, sem dúvida nenhuma é possível também alinhar a essa discussão aquilo que Ileana Diéguez chama de performances ou “ações cidadãs”, ou seja, “os gestos simbólicos que colocam vontades coletivas na esfera pública e constroem de outras maneiras seu ser político. Não tendo um fim estético, produzem uma linguagem que absorve a percepção e suscitam olhares a partir do campo artístico[5]”. Essas ações cidadãs podem abarcar desde as marchas silenciosas das Mães de Maio, na Argentina, até a Praia da Estação e outras ações ativistas, ligadas à militância política dos movimentos sociais e ao cyber ativismo.
É importante destacar que, embora a aproximação entre performance e ativismo não seja tão recente – remontando às décadas de 50 e 60 – parece haver, atualmente, um estreitamento desses laços. Se por um lado, como salienta Diéguez, podemos notar o “ressurgimento de uma politização na arte, através de práticas carnavalescas, lúdicas e corporais”, por outro lado, é bastante perceptível “o desenvolvimento de uma atitude estetizante das práticas políticas[6]” de diversos movimentos sociais – do feminismo e do ativismo LGBTT ao movimento negro – fazendo com que a experimentação expressiva do corpo possa acontecer em variados níveis. Na organização da Marcha das Vadias, só para citar um exemplo, é possível observar da construção de um corpo coletivo à individuação das marcas de opressão (ou de reivindicação de liberdade) nos corpos que performam múltiplos discursos sobre a mulher. Pois pensar o corpo da mulher já não nos coloca inúmeras questões, tais como: o que é “ser mulher”? O que a define? O que define um corpo como feminino? O que pode o corpo de uma mulher? E o que não pode?
Voltando então à questão colocada por Ileana Diéguez...  
Ao tratar da efetividade da ação na cena contemporânea, ela o faz colocando em xeque, inicialmente, o sentido desses 03 termos: efetividade, ação e cena contemporânea.
No que tange à cena contemporânea, ela questiona, em primeiro lugar, que tipo de cena se tem em mente quando usamos esse termo, uma vez que “a noção de “cena” se deslocou dos campos artísticos e cada vez mais tem sido considerada como lugar de onde se observam ou onde se refletem realidades sociais, históricas e políticas[7]” como, por exemplo, nas expressões “a cena hip hop” ou “a cena política atual”. Em seguida, Diéguez discute em que sentido “ação” está sendo considerada: “a ação como execução performática ou teatral, ou como acontecimento artístico em geral? Ou a ação como ato que compromete a unidade do ser”, ou seja, a ação como um ato em que o sujeito esteja eticamente engajado? E, por último, ela se pergunta em que sentido uma ação pode ser considerada efetiva, ou seja, “para quem ou para o que [ela] é efetiva e a partir de quais critérios – pragmáticos, artísticos, éticos – pode se medir esta ‘efetividade’” da ação?
Com essas questões como horizonte, Diéguez vai mergulhar em algumas reflexões levantadas pelo filósofo russo Bakhtin[8] para discutir as aproximações e limites entre arte e vida: “quando nos perguntamos se uma ação na arte pode ser concebida e sustentada como um ato na vida”. Continuando, ela salienta que, no projeto filosófico de Bakhtin, o ato ético é resultado da interação entre dois sujeitos distintos, não como relação formal, mas no sentido de uma responsabilidade concreta que condiciona o ser-para-outro.
Ainda segundo Diéguez, essa noção de implicação é o fundamento real do ato que implica também a prática artística como forma estética do ato ético. No entanto, nunca como uma ação técnica ou, muito menos, como um espetáculo do corpo. Em relação ao corpo do performer, ela salienta que o corpo do atuante (seja ator ou praticante)

...não é somente uma presença material que executa uma partitura performativa dentro de um marco autoreferencial e estético. [...] A presença é um ethos que assume não somente sua fisicalidade, mas também a eticidade do ato e as derivações de sua intervenção. A condição de performer enfatiza uma política da presença ao implicar uma participação ética, um rasgo em suas ações sem o encobrimento das histórias e personagens dramáticos.

Ou seja, para Diéguez, a presença abarca não só o aspecto físico, material, do performer, mas também a responsabilidade ética que ele toma para si ao colocar-se em um espaço cênico, assumindo todos os riscos daquilo que Eduardo Pavlovsky chama de “ética do corpo”.
Essas questões a Diéguez coloca para abordar algumas experiências das artes do corpo que aconteceram em “realidades em que se violam, somem ou aniquilam corpos”. Ou seja, para pensar experiências artísticas atravessadas pelo contexto histórico em que o corpo dx artista está não somente instalado, mas diretamente implicado.
Afinal, o que pode um corpo mover?

Uma experiência, por definição, determina um antes e um depois, corpo pré e corpo pós-experiência. Uma experiência é necessariamente transformadora, ou seja, um momento de trânsito da forma, literalmente, uma trans-forma. As escalas de transformação são evidentemente variadas e relativas, oscilam entre um sopro e um renascimento. Programas criam corpos – naqueles que os performam e naqueles que são afetados pela performance [...]. Corpos são vias, meios. Essas vias e meios são as maneiras como o corpo é capaz de afetar e de ser afetado. O corpo é definido [por Espinosa] pelos afetos que é capaz de gerar, gerir, receber e trocar. (FABIÃO, 2008, pp. 237-238).




Referências:
BERNSTEIN, Ana. Marina Abramovic: do corpo do artista ao corpo do público. IN: SÜSSEKIND, Flora; DIAS, Tânia e AZEVEDO, Carlito (org.). Vozes Femininas: gênero, mediações e práticas de escrita. Rio de Janeiro: 7 letras: Fundação Casa Rui Barbosa, 2003, pp. 378-398.

BUTLER, Judith. Corpos que pesam IN: LOURO, Guaciara Lopes (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Artes de Fazer. Petrópolis, Editora Vozes: 2014.

DIÉGUEZ CABALLERO, Ileana. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FABIÃO, Eleonora. Performance e Teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. IN: Revista Sala Preta, v.8, n.1. São Paulo, PPGAC da ECA-USP, 2008, pp. 237-238. Disponível na versão online:







[1], Trecho da crítica Esse silêncio grita por humanidade, de Ivana Moura, publicada no blog Satisfeita, Yolanda? Disponível em: http://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/2015/12/21/esse-silencio-grita-por-humanidade/ .
[2] Sobre estatísticas de violência contra a mulher, ver Mapa da Violência 2015, disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-nacionais-sobre-violencia-contra-a-mulher/ .
[3] BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
[4] Mas este é tema de outros textos... para quem se interessar, sugiro a leitura do artigo de Josette Féral (2015) “O que restou da performance art? Autópsia de uma função, nascimento de um gênero”, bem como meu artigo “A performance morreu? Antes ela do que eu”, publicado no Portal Primeiro Sinal e disponível em: http://www.primeirosinal.com.br/artigos/performance-morreu-antes-ela-do-que-eu .
[5] DIÉGUEZ, 2011, p. 14.
[6] DIÉGUEZ, 2011, pp. 19-20.
[7] Esta e todas as citações seguintes referem-se a DIÉGUEZ, Ileana. La “efectividad” de la “acción” en la “escena contemporánea”: ¿La práctica estética como acto? Texto inédito apresentado no colóquio Pensar a Cena Contemporânea, já citado anteriormente.
[8] BAKHTIN, Mikhail. A Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

3 horas de prosa, as 3 histórias e as três Marias.

Maria, esta é Maria. 
Maria, esta é Maria.
Maria, muito prazer: meu nome é Maria.
Dia de luto: Marias viúvas que lutam.
Homens violentos que morreram primeiro.
Os 4 tiros, o facão amolado toda noite embaixo da cama: "Hoje você vai trabalhar nesse quarto".
A fome, a rapa de arroz na casa da vizinha, os 4 filhos, o tapa na orelha que ainda dói: "As mulheres da zona são melhores que você".
Ser evangélica para agradecer a obra de Deus: Ser viúva foi milagre.
"Olha aqui a marca do tiro. Deus me salvou da morte."
"Santa Efigênia tem uma casa nas mãos. Eu estava desesperada e pedi uma casa para ela. Uma casa em minhas mãos também."
Comigo também, Maria.
"Quem casa quer casa. Eu queria ir embora da casa"
Maria, eu não sou evangélica. Mas eu sou mulher.
Maria, eu não sou católica. Mas eu sou mulher.
Me dá um abraço.
Maria, eu não quero parar de conversar com você.
dá seu telefone, eu quero guardar essa foto.
Eu mando prá você.
Eu perdoei a outra mulher dele. Somos amigas.
Eles estão mortos. Mas poderia ser a gente.
Maria com a bíblia na mão, agradece.
Maria, muito prazer. Esta é Maria.
Maria, muito prazer. Esta é Maria.
Choramos cortando nossas cebolas.
Nossa, já é hora do almoço.
Eu nem vi o tempo passar.
Volta?
Volto.
Eu também nunca vou me esquecer de você.
Maria, até logo.
Maria, até já.
Maria, boa tarde.
Maria, até outro dia.


(Thaiz Cantasini - 
Ação Por Marias e Evas - 
18/12/15. 
Das 9 ao meio dia.
Cachoeira do Campo-MG)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ARTE/VIDA, FEMINISMO E O SOM DO CHUTE NO CÁRCERE.

                                                                         Thaiz Cantasini

Sinto-me vitoriosa por ser separada e ter caçado meu próprio canto. Adoro minha casa, a varanda sem horá
rio, o pé de manjericão, meu pisca-pisca ligado na sala sem ser Natal. A casa é alugada, mas é o melhor que posso fazer por mim e por minha filha agora. Gostamos tanto daqui!
Mas não se engane, leitorx: a vida não deixou de esbofetear e de rir da minha cara. Mas agora com uma diferença: sei responder, afiei minha língua nessa pedra-de-amolar (que é o cotidiano) e apurei o meu silêncio ao ponto de tornar-me completamente indiferente ou no mínimo piedosa quando a vida resolve ser cínica, arrogante ou babaca comigo. Uso a palavra vida aqui como uma metáfora.
Foi importante ter estudado e ainda estar estudando. Eu tenho 35 anos e faço mestrado em Artes Cênicas.
Estudando pude conhecer outras mulheres, trocar conhecimentos, revigorar vida e arte, livros e con-vivências. Toda mulher pode romper o exílio. E outras vão nos acolher porque nós sabemos umas das outras.
Comecei a escrever este texto depois de pensar no meu exílio e hoje consigo perceber que estou em movimento. Não nasci prá ficar estacionada. Não sinto tesão por gente estacionada.
Digo isso depois de engolir um marasmo enorme e por isso hoje sou mesmo insuportável. Sou insuportável porque não caibo em mim, estou em estado de criação e de poesia o tempo todo. Descobri que transbordo e aviso para as outras que o casamento precisa ser reinventado desde o termo, que esse negócio de fundir e virar um, só faz mesmo, com o tempo, é anular quem a gente é. Não posso falar pela experiência de todas, mas eu, cá com meus percalços, arrisquei-me em exercitar ser várias, experimentar a dimensão da minha existência e não justificar o que opto quando o assunto é o MEU corpo.
Eu não me censuro porque descobri que tenho direito de ser e de respeitar meus desejos, meus sonhos. Eu atropelei por muito tempo os meus devires e por pouco não os matei: fiz um curso de Direito por 9 anos querendo o tempo todo estudar teatro...e quando saí, exigiram que eu carregasse só a culpa já que havia renunciado o diploma (“Tadinha, ela não deu certo”). Abaixei muito a minha cabeça para um bando de homem dentro e fora de casa. Acorcundei. Cedi o meu corpo como coisa aí pro mundo porque não era senhora de nada, nem senhora de mim. Obedeci demais. Obedeci porque tive medo. Obedeci porque “se não obedecer, apanha”. Mas a surra maior que a gente leva é por obedecer demais. Eu fugi de casa, eu fugi do curso que não queria fazer, eu fugi do casamento. Escapei, mas não ilesa. Nunca estamos ilesas. E faço arte hoje pelas brechas que encontro para fugir das prisões desse cotidiano-mulher que estica seu tapete de sangue vermelho-ancestral e eu quero uma história diferente das que conheci.
Eu teria virado nada se não descobrisse que eu sempre fui uma feminista (e isso gritou depois da morte de minha mãe em 1996, quando a família achou que eu precisava de vigília reforçada por ser a única mulher da casa: casar virgem, ter horário para chegar e sair, fechar as pernas.) e que existem mulheres com histórias parecidas com a minha...e que nem todas estão vivas (ou autorizadas) para um papo reto sobre isso. Sim, nós deixamos de fazer muita coisa por sermos mulheres.
Casar e ter filhxs foi para muitas a única possibilidade de destino.

Deixe-me escrever um poema por dia e aos poucos vou sendo o que eu achar melhor prá mim.
Faço isso por minha filha, Eva.

A maneira mais sincera do meu fazer artístico se dá porque eu me reconheço como uma mulher feminista. Porque nada que eu faça no âmbito das artes anulará a mulher que está inscrita em mim. E eu não faço arte pela metade: Meu corpo está para o meu discurso. Minha pele está para a minha geografia fêmea. Minha voz está para as vozes que calei e quando eu cantar estarei rompendo essa mordaça.
A gente só percebe o quanto obedece quando tem a chance de respirar. Eu respiro neste aqui e agora, na intocável impermanência deste instante (apesar do meu vício irrevogável pelos cigarros de palha: herança daqui das Minas Gerais).
Este escape para sentir o sabor da própria pele e a possibilidade de amar nosso corpo no mundo como potência impossível e precária, insuportável e poética, nos dilata: somos de novo paridas. Lançadas no mundo e encontramos umas nas outras molhos densos de chaves que podem romper portas enguiçadas, insistentes vigílias, ferrolhos e cárceres.

Por via das dúvidas, sabemos chutar.



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[Thaiz Cantasini é licenciada em Artes Cênicas e mestranda em Poéticas e políticas da cena contemporânea pelo PPGAC UFOP. Compositora, mãe, poeta, performer e ativista feminista nos coletivos Ninfeias-Núcleo de Investigações Feministas e Coletivo Minas da Voz]

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